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Há um ano parei de comprar roupas e agora não consigo voltar

Ironicamente, a primeira vez que a ideia de parar de comprar roupas surgiu foi num shopping. Natal, o famoso evento que reúne toda a família, momento perfeito para vestir algo novo e aumentar o número de peças para a coleção, lembro que nesse natal ainda ajudei alguns amigos a escolherem o que eles usariam para o final de ano. Fiz minha parte, contribui para que a roda do capitalismo continuasse girando, sabia que podia dormir em paz e esperar meu presente de Natal. Até que chegou a minha vez de fazer a esperada escolha, entrei em uma loja, duas, três, tinha algo de errado, o que via me incomodava e o sentimento de prazer que sempre me acompanhava tinha me abandonado, acabei saindo do shopping com 3 peças de roupas, camisas pretas nos tamanho gg, pp, e p, o que considerei peças-chave para me ajudar a ver até onde ia a decisão de abandonar as compras.

Acredito que a maioria aqui já pensou em parar de ler e seguir para o próximo texto. Que? Como algum id**ta simplesmente deixa de sentir vontade de comprar roupas e acha que isso vai me fazer refletir sobre a vida. Então meus caros, minha decisão não veio do nada, tinha um objetivo de vida muito claro e as roupas já não mais ajudavam a esclarecer a bagunça que era minha mente, por mais que tivesse me planejado era uma grande mudança de vida, ia sair do interior para a grande e temida São Paulo, caminho que definiria minha vida, e sim, tinha medo do que poderia acontecer, mas essa é uma história para outro dia, vamos falar de moda. 

SUCESSO VESTE PRADA
Filme Diabo Veste Prada

Meu ideal de sucesso sempre foi o filme Diabo Veste Prada, aliás ainda não assisti esse ano, preciso colocar na minha lista de afazeres. O momento onde a Andrea (Anne Hathaway) entende que não se esforçava o suficiente para manter o emprego e vê que a forma de subir na carreira era entrar de cabeça no mundo da moda, era exatamente como imaginava meu primeiro emprego em São Paulo. Ingênuo, não? Pensar que o meu primeiro emprego fosse me permitir um guarda roupa inteiro e que eu estaria satisfeito gastando cada centavo em roupas novas. Isso não aconteceu e parte da lição que veio em seguida foi: Alguns prazeres morrem quando você está lutando para fazer sua vida acontecer.

Devo dizer que o início foi duro, imaginei várias mudanças de estilo, como uma boa calça de alfaiataria e uma bota chelsea mostrariam o quão profissional e bem sucedido eu era, um exemplo a ser seguido de quem dominou a cidade grande. Algo que não se realizou no primeiro mês, nem no segundo, nem no terceiro, confesso que ainda sonho com a mesma bota e com a calça com o caimento perfeito que um dia vão refletir a minha postura profissional e a minha felicidade com a vida.

Um pouco de fatos

Hoje, a média do salário de um brasileiro é de 2.300 reais, e segundo um estudo do Euromonitor, um trabalhador brasileiro já ganha menos do que é pago a um trabalhador chinês, mas mesmo assim depositamos parte do nosso salário em roupas, peças que custam 200, 300 reais, ou seja, mais ou menos 10% do que você ganha cada.

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Euromonitor
Deixar de ser um praticante do consumismo de moda me fez parar e refletir sobre o valor das coisas. Claro, existem peças que valem sim esse valor, ou ainda marcas que vendem um pouco abaixo para atrair novos consumidores que tem produtos excelentes.
Mas e as contas?
Acredito que todos estamos cientes que muitas vezes sacrificamos qualidade para ter peças estilosas, mas mesmo com preços atrativos ainda não convém com a vida de alguém que está começando na capital e precisa se manter. As famosas contas, lembram? Elas existem, poderia ter um programa sobre elas no Discovery já que elas surgem de onde menos esperamos e consomem nossas vidas. A conta não fecha e alguns sacrifícios precisam ser feitos se não quisermos uma fatura do cartão com juros ou ter dinheiro para uma emergência. Eu escolhi ficar mais um tempo sem roupas, não digo que sou o guru da economia, mas senti que algo precisava ser feito e que esse era um sacrifício que eu poderia fazer com uma certa facilidade, afinal, alguns meses sem compras já haviam passado.
Nossa, que barato e estiloso, vou levar!

Sim, uma boa parte do meu guarda roupa que sobreviveu comigo esse um ano era de peças estilosas, mas que pra conseguir pagar sacrificavam um pouco a qualidade. Sem vilões aqui, sabemos disso quando compramos, é uma escolha e uma forma da moda tornar o acesso a roupas mais democrático, mas para quem não renova o guarda roupa a um ano é um problema já que essas roupas tem validade e passado um ano e meio elas começas a não ser tão boas de usar.

E agora?
Hoje é o primeiro dia que volto a um shopping com o objetivo de comprar roupas, um ano e meio depois mais ou menos, mas de alguma forma não consegui, vi as roupas, vi os preços e algo dentro de mim não me deixou entrar nesse universo outra vez. Mas ao mesmo tempo meu guarda-roupa está bem repetido, as peças acabando, uma hora ou outra vou ter que voltar a comprar e sempre que penso volta a reflexão e compartilho ela com você: Qual é o preço para consumir moda que você está disposto a pagar? 

*Pra não dizer que não comprei nada, comprei uma brusinha de 30 reais na Comic Con do Star Wars e depois de 1 ano não resisti e comprei também um colete de pele sintética.

*Foto de capa por Tim Wright no Unsplash.

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