Uma roupa barata faz um homem barato?

Não tô falando que não tenha uma queda por marcas, já admito de uma vez que sou um grande fã do mercado de luxo. Confesso que já cai muitas vezes no bad mood social, me considerando uma pessoa barata em relação aos outros. O que não é verdade nem para mim nem para você. Não é o preço do que você veste que formará seu estilo, sua identidade de moda vai além disso.

Gosto de uma frase que a Viola Davis trouxe em seu brilhante discurso no Emmy que diz:

“Em minha mente vejo uma linha. E depois dessa linha eu vejo campos verdes, lindas flores e belas mulheres brancas com seus braços esticados para mim, mas por algum motivo eu não consigo chegar lá e eu não sei como. Harriet Tubman (1800)

Essas duas linhas em si já carregam um peso imenso, tratam ainda de um grau acima, questões que descrevem uma realidade mais forte que mesmo com esforço não podem ser mudadas. Se ampliarmos nossos horizontes e refletirmos sobre a linha, poderemos aplica-la a diversas barreiras sociais que criamos, inclusive na moda. Eu mesmo me privei de escrever sobre o luxo e a moda por um bom tempo por considerar que eu não pertencia a realidade dos blogueiros que falam sobre esse assunto. Acessando os canais dessas pessoas dá pra notar que os caras tem muita grana, e de fato saem no mesmo dia com looks de mais de 5 casas de money, é interessante como essa linha é forte e como sempre vamos tentar nos enxergar atrás dela. Mas pior que isso é saber que na maioria das vezes tem alguém por trás querendo que você se enxergue assim, e que por isso, que vale muito a pena refletir e quebrar esse paradigma da sua cabeça.

Sim, fica mais sombrio. Existe um conceito chamado lei de resíduos visíveis, que surpreendentemente surgiu num período próximo da frase citada acima, com o objetivo de orientar o consumo de vestuário moldando as normas do que vemos como bom gosto e decência. E é em parte culpado a esse conceito que o “usar roupas caras” é uma credencial perfeita para fazer de você uma pessoa de opinião e respeito. AÍ você pensa, poxa, mas claro, essas roupas mais caras eram de melhor qualidade. Mas não caros senhores, esta lei se aplica também a categorias onde os produtos não necessariamente tinham seus preços ligados a qualidade, apenas tinham sua distinção por valor.

E isso ainda vai longe, se olhar, a exigência do caro está em nossos hábitos de consumo, principalmente em roupas onde as vezes nos vemos odiando de forma instintiva, tudo aquilo que passa a imagem de “barato”.

“Sem reflexão ou análise, nós sentimos que o que é barato é indigno. “Um casaco barato faz um homem barato.” “Barato e desagradável” é reconhecida como uma realidade no vestido com ainda menos medidas de redução do que em outras linhas de consumo.”Vebler (1899)

Se observar, não precisei utilizar nenhuma teoria atual de consumo para te mostrar que isso de fato existe e está te prendendo a um conceito de 100, 200 anos atrás. Mas vamos pensar pelo que podemos tirar disso tudo, não digo que você não possa usar roupas mais caras, nem que elas não possam ter mais qualidade, porque muitas vezes elas têm. Mas sim que as roupas que você usa tem que ser um instrumento, uma forma de expressar seu estilo. É só uma linha, uma puta linha difícil de cruzar, mas que como todo outro obstáculo, ou você vira refém do medo, ou você atravessa, e nesse caso vai ser algo bom, porque você vai empoderar o seu estilo.

Caso queira ler mais sobre o assunto recomendo o artigo: http://goo.gl/oZsafW

(A imagem acima ilustra os dois universos. Com o objetivo de dar acesso ao seu estilo, Herchcovitch criou uma coleção de fast fashion com a C&A)

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